Para importar da China, a sua empresa precisa estar habilitada no Siscomex (o Radar), escolher um fornecedor, pedir cotação e amostra, fechar contrato e proforma com o Incoterm definido, pagar com segurança, inspecionar a produção e contratar frete e despacho aduaneiro para liberar a carga no Brasil. Esse é o passo a passo de como importar da China em uma frase. O que faz a diferença entre um primeiro pedido tranquilo e um contêiner de dor de cabeça está nos detalhes de cada etapa, e boa parte deles é escrita em chinês.

Este guia funciona como mapa. Em cada etapa eu resumo o essencial e indico o artigo do blog que aprofunda o assunto. Não dou orientação tributária nem jurídica: para impostos, enquadramento e desembaraço, o caminho é o despachante aduaneiro, o contador e as páginas oficiais da Receita Federal.

Como importar da China passo a passo: qual é o caminho?

A ordem pode variar um pouco de produto para produto, mas a importação da China para empresa costuma seguir esta sequência:

EtapaO que aconteceOnde o chinês entra
1. HabilitaçãoRadar no Siscomex e checagem de licenças pela NCMNão entra
2. FornecedorBusca no Alibaba, no 1688 ou em feiraPrimeiro contato e perguntas
3. Cotação e amostraPreço, MOQ, Incoterm, prazo, amostraFicha técnica e negociação
4. ContratoProforma, pedido e contratoConferir o que você assina
5. PagamentoSinal e saldo, em geral por transferênciaNome do beneficiário e dados bancários
6. QualidadeInspeção antes do embarqueCritérios de aceitação e reclamação
7. FreteAgente de cargas, documentos de embarquePacking list e marcações da caixa
8. DesembaraçoDeclaração, conferência e liberaçãoManual, rótulo e descrição do produto

Repare que o chinês aparece em quase tudo, mas com pesos diferentes. Volto a isso no fim.

O que a empresa precisa ter no Brasil antes de importar da China?

O primeiro requisito é a habilitação no Siscomex, que o mercado chama de Radar. Segundo o manual de habilitação da Receita Federal, ela é regida pela Instrução Normativa RFB nº 1.984/2020 e é etapa prévia ao despacho aduaneiro. O pedido da pessoa jurídica é feito no Sistema Habilita, dentro do Portal Único Siscomex, e o sistema calcula a capacidade financeira estimada e já define a modalidade e o limite de operação. A Receita pode, ainda assim, mandar o pedido para análise de um servidor.

Para pequenas empresas, as modalidades que importam são estas, conforme as orientações publicadas pela Receita:

  • Limitada: para capacidade financeira estimada de até US$ 150 mil. O teto de importação é de US$ 50 mil ou de US$ 150 mil a cada período de seis meses, dependendo da estimativa.
  • Ilimitada: para capacidade estimada acima de US$ 150 mil por semestre, sem teto de operação, desde que o volume seja compatível com essa capacidade.
  • Expressa: reservada a sociedades anônimas de capital aberto, suas subsidiárias integrais, empresas públicas e sociedades de economia mista.

A estimativa se baseia nos tributos federais efetivamente pagos pela empresa no ano corrente e nos quatro anteriores. Na prática, uma empresa nova ou com pouco recolhimento tende a começar na Limitada. As regras são revisadas de tempos em tempos, então confirme a situação atual no site da Receita antes de planejar o volume do primeiro pedido.

O segundo ponto é o licenciamento. De acordo com o Manual Aduaneiro de Importação, a maioria das operações é dispensada de licença, mas alguns produtos dependem de anuência de órgãos como os de saúde ou agricultura. A consulta é feita pela NCM da mercadoria, no simulador de tratamento administrativo do Siscomex. Descubra isso antes de pagar o sinal, não com a carga no porto. E escolha cedo um despachante aduaneiro: é ele quem vai registrar a declaração e acompanhar o desembaraço.

Como encontrar e avaliar um fornecedor chinês?

Os caminhos mais comuns são as plataformas B2B e as feiras. No Alibaba, a conversa costuma começar em inglês; o guia sobre como falar com fornecedores no Alibaba e ser levado a sério mostra o que escrever na primeira mensagem. O 1688 é o atacado feito para o mercado interno chinês, com anúncios e chat em chinês, e tem suas armadilhas próprias, explicadas no artigo sobre comprar no 1688 sem falar chinês.

Quem pode viajar encontra fábricas na Feira de Cantão e em visitas presenciais, com uma preparação escrita que descrevi no texto sobre a Feira de Cantão e visita a fábrica. Em qualquer caminho, o fornecedor, 供应商 (gōngyìngshāng), vai querer migrar a conversa para o WeChat cedo ou tarde, e vale saber como manter tudo registrado por lá (falo disso no guia de WeChat para importadores).

Cotação, amostra e negociação: o que pedir antes de fechar?

Uma cotação útil, 报价 (bàojià), traz preço unitário por faixa de quantidade, o mínimo de pedido, 起订量 (qǐdìngliàng), o Incoterm, o prazo de produção e as condições de pagamento. Se faltar um desses itens, você não consegue comparar fornecedores de verdade. Tenho modelos de mensagens em chinês para cotação, amostra e pedido que ajudam a pedir tudo de uma vez.

A amostra, 样品 (yàngpǐn), é o seu padrão de comparação para o lote inteiro. Só que ela só vale como referência se a especificação estiver escrita: material, medidas com tolerância, cor com código, embalagem. O artigo sobre tradução de ficha técnica para fornecedor chinês detalha isso. Se o MOQ assustar, leia como negociar preço e MOQ antes de fazer a contraproposta.

FOB, CIF ou EXW: qual Incoterm pedir na cotação?

Os Incoterms são as regras da Câmara de Comércio Internacional (ICC) que definem até onde vai a responsabilidade do vendedor e onde começa a do comprador. A versão em uso é a Incoterms® 2020, com onze regras de três letras. Para quem compra da China, três aparecem o tempo todo:

  • EXW, 工厂交货 (gōngchǎng jiāohuò): o fornecedor só deixa a mercadoria disponível na fábrica. Coleta, despacho de exportação na China e frete ficam com você.
  • FOB, 离岸价 (lí’ànjià): o fornecedor entrega a carga a bordo do navio no porto chinês. Daí em diante, frete, seguro e risco são seus.
  • CIF, 到岸价 (dào’ànjià): o fornecedor paga frete e seguro até o porto de destino, mas o risco passa para você no embarque, ainda na China.

Minha opinião sincera? Para quem está começando, FOB com um agente de cargas contratado por você costuma dar mais controle do que um CIF “barato”, em que o frete escolhido pelo fornecedor pode esconder custos no destino. Seja qual for a escolha, o Incoterm e o porto precisam aparecer escritos iguais na cotação, na proforma e no contrato. Uma divergência pequena ali vira discussão grande depois.

Contrato, pagamento e qualidade: como se proteger?

Antes de transferir qualquer valor, o pedido vira documento: a proforma invoice, 形式发票 (xíngshì fāpiào), e, nos pedidos maiores, um contrato. É aqui que se define o que conta como defeito, o prazo de entrega e quem paga o retrabalho. Em contrato bilíngue, a versão em chinês costuma ser a que a fábrica leu e assinou, por isso vale saber exatamente o que ela diz. O passo a passo da conferência está no guia sobre proforma invoice e contrato com fornecedor chinês.

No pagamento, o formato mais comum é um sinal, 定金 (dìngjīn), e o saldo, 尾款 (wěikuǎn), antes do embarque. O golpe da troca de conta bancária por e-mail é real, e o nome do beneficiário em chinês precisa bater com o da empresa contratada. Explico como conferir em como pagar fornecedor chinês com segurança.

E guarde parte do saldo para depois da inspeção, 验货 (yànhuò). Uma inspeção antes do embarque, com critérios escritos e aceitos pelos dois lados, é muito mais barata do que reclamar com o produto já no Brasil. Se mesmo assim algo der errado, o artigo produto veio errado: como reclamar com fornecedor chinês traz uma mensagem-modelo.

Frete e desembaraço: como a carga chega e é liberada?

Com o pedido pronto, o agente de cargas reserva espaço no navio ou no avião, e o fornecedor emite a fatura comercial, o 装箱单 (zhuāngxiāngdān), ou packing list, e os dados para o conhecimento de embarque. Confira se a descrição da mercadoria, as quantidades e os pesos batem entre os documentos. É comum o fornecedor mandar uma descrição genérica em inglês que não ajuda o seu despachante na classificação.

No Brasil, o despachante registra a declaração de importação e a carga passa por conferência até o desembaraço. Vale saber que a Receita está trocando a antiga DI pela Duimp, a Declaração Única de Importação, registrada no Portal Único Siscomex, de forma gradual e por tipo de operação, conforme um cronograma oficial. O seu despachante sabe em qual fase a sua operação está. Do lado chinês, a etapa de declarar a carga à alfândega se chama 报关 (bàoguān); veja o verbete de despacho aduaneiro no glossário.

Depois de liberado, o produto ainda precisa falar português com o seu cliente: manual, rótulo e embalagem. Escrevi sobre isso em traduzir manual e rótulo do chinês para o português.

Onde a comunicação em chinês faz mais diferença?

Você não precisa de tradutor para cada mensagem do dia a dia. Inglês e ferramentas automáticas resolvem bastante coisa, e eu não acho que alguém deva abrir mão delas. O que eu recomendo é separar o que é conversa do que é compromisso. Os pontos que mais pedem um chinês sem ambiguidade são estes:

  1. A especificação do produto, porque é ela que a fábrica segue na produção.
  2. A proforma e o contrato, porque definem prazo, defeito e quem paga o quê.
  3. A confirmação dos dados bancários, porque um nome de beneficiário mal lido pode custar o sinal inteiro.
  4. A reclamação de qualidade, porque precisa citar o que estava combinado com precisão.

Se quiser entender por que esse cuidado virou parte do custo de importar, o artigo sobre comércio Brasil-China e tradução mostra o contexto com números oficiais.

Eu sou brasileira, descendente de taiwaneses e fluente em mandarim. Traduzo e reviso entre português e chinês, simplificado ou tradicional, sempre por escrito: mensagens, fichas técnicas, proformas, contratos e reclamações, além de conferir textos que passaram por IA. Não faço interpretação ao vivo nem participo de reuniões. Está montando o seu primeiro pedido ou travou em alguma etapa? Me mande o texto e eu digo o que precisa de atenção; os detalhes estão na lista de serviços.

Fontes e referências

  1. Habilitação no Siscomex (manual de habilitação) — Receita Federal
  2. Modalidades Limitada e Ilimitada (orientações válidas a partir de 01/12/2020, IN RFB nº 1.984/2020) — Receita Federal
  3. Habilitação via Sistema Habilita – Pessoa Jurídica — Receita Federal
  4. Licenciamento da Importação (Manual Aduaneiro de Importação) — Receita Federal
  5. Migração da DI para Duimp — Receita Federal
  6. Incoterms® 2020 — International Chamber of Commerce (ICC)