Se você procura um tradutor de mandarim e ficou na dúvida entre “mandarim”, “chinês” e “cantonês”, a resposta curta é esta: “chinês” é um guarda-chuva que reúne várias línguas e variantes, e o mandarim é a forma padrão, falada e escrita na China continental e em Taiwan e usada em Singapura. O cantonês predomina em Hong Kong, Macau e na província de Guangdong. Para traduzir um texto, quase sempre o certo é pedir chinês padrão (mandarim); para áudio e vídeo, o que manda é a língua que se ouve na gravação.
Parece detalhe de nomenclatura, mas não é. Pedir a coisa errada pode render um texto que soa estranho para o público certo, ou uma legenda feita por alguém que não entende o que está sendo dito. Vou explicar a diferença sem enrolação e, no fim, mostrar as perguntas que eu faço antes de aceitar qualquer trabalho.
“Chinês” é uma língua só?
No uso do dia a dia, sim: quando alguém no Brasil diz que quer “traduzir para o chinês”, está falando do mandarim. Só que, olhando com mais cuidado, “chinês” cobre um conjunto de línguas e variantes faladas na China e fora dela. Algumas são tão diferentes entre si que quem fala uma não entende a outra, mesmo sendo todas “chinês”.
Os próprios chineses usam palavras diferentes para isso. 中文 (zhōngwén) é o termo mais comum para “língua chinesa”, e muita gente o associa sobretudo à escrita. 汉语 (hànyǔ) é mais técnico, aparece em livros didáticos e em nomes de exames. Nenhum dos dois diz, sozinho, qual variante falada está em jogo.
Além do mandarim e do cantonês, existem outras variantes com bastante peso regional, como o hokkien. Em Taiwan, por exemplo, muita gente fala também o 台語 (táiyǔ), o taiwanês, ao lado do mandarim. Na hora de contratar uma tradução, porém, quase sempre a escolha real fica entre mandarim e cantonês.
O que é o mandarim e onde ele é falado?
O mandarim é a língua padrão do chinês: é a que se ensina nas escolas, a que se ouve no noticiário e a que serve de base para o chinês escrito formal. Curiosamente, ele muda de nome conforme o lugar:
- Na China continental, chama-se 普通话 (pǔtōnghuà), algo como “língua comum”.
- Em Taiwan, o nome usual é 國語 (guóyǔ), “língua nacional”, escrito em caracteres tradicionais.
- Em Singapura e em muitas comunidades chinesas espalhadas pelo mundo, fala-se em 华语 (huáyǔ).
É a mesma língua, com diferenças de sotaque e de vocabulário parecidas com as que existem entre o português do Brasil e o de Portugal. Um taiwanês e alguém de Pequim conversam sem problema, mas cada um tem suas palavras preferidas, e a escrita muda: tradicional em Taiwan, simplificada no continente e em Singapura. Como descendente de taiwaneses, tenho um carinho especial pelo mandarim de Taiwan, mas presto atenção nessas diferenças nos dois sentidos quando decido como um texto deve soar.
Mandarim ou cantonês: qual a diferença na prática?
O cantonês, chamado de 粤语 (yuèyǔ) ou, em Hong Kong, de 廣東話 (gwong2 dung1 waa2, na romanização Jyutping usada para o cantonês), é a língua do dia a dia em Hong Kong, Macau e boa parte de Guangdong. Ele tem mais tons que o mandarim, outra pronúncia e muitas palavras próprias na fala. Para quem só fala mandarim, ouvir uma conversa em cantonês é como um brasileiro ouvindo romeno: alguma coisa soa familiar, mas o sentido escapa.
Esta tabela resume o que mais importa para quem vai contratar uma tradução:
| Aspecto | Mandarim | Cantonês |
|---|---|---|
| Onde predomina | China continental, Taiwan, Singapura | Hong Kong, Macau, Guangdong |
| Escrita mais comum | Simplificado no continente e em Singapura; tradicional em Taiwan | Tradicional em Hong Kong e Macau; simplificado em Guangdong |
| “Olá” | 你好 (nǐ hǎo) | 你好 (nei5 hou2): mesmos caracteres, outra pronúncia |
| “Obrigado” | 谢谢 (xièxie) | 唔該 (m4 goi1) por um favor ou serviço; 多謝 (do1 ze6) por um presente ou elogio |
Os números depois de cada sílaba do cantonês indicam o tom no sistema Jyutping. No mandarim, os tons vêm como acentos no pinyin. Em 你好, os dois caracteres têm o terceiro tom, mas na fala o primeiro sobe, e o resultado soa aproximadamente como “ni hau”, com o h parecido com o r de “rato”. Já 谢谢 começa com um tom que cai e termina numa sílaba leve, sem tom marcado: algo próximo de “xiê-xie”, com o x mais suave que o nosso. São aproximações, claro; o ouvido sempre ajuda mais do que a grafia.
Repare na linha do “obrigado”. O cantonês separa dois agradecimentos que o mandarim costuma juntar num só. É um bom exemplo de por que não dá para “converter” um texto de uma variante para a outra trocando palavra por palavra.
Na escrita, mandarim e cantonês são iguais?
Em boa parte, sim, e é isso que confunde. O chinês escrito formal segue a gramática e o vocabulário do mandarim. Em Hong Kong, jornais, documentos oficiais e contratos costumam usar esse chinês escrito padrão, em caracteres tradicionais; a pessoa lê em voz alta com a pronúncia cantonesa, mas o texto em si é muito próximo do que se escreveria em Taiwan.
A coisa muda quando o cantonês é escrito do jeito que se fala. Aí aparecem caracteres e palavras que o mandarim não usa no mesmo sentido. Alguns exemplos comuns:
- 係 (hai6) no lugar de 是 (shì), “ser”.
- 唔 (m4) no lugar de 不 (bù), “não”.
- 冇 (mou5) no lugar de 没有 (méiyǒu), “não ter”.
- 佢 (keoi5) no lugar de 他 ou 她 (tā), “ele” ou “ela”.
Esse cantonês escrito aparece em mensagens, posts, legendas de alguns programas de Hong Kong e publicidade bem informal. Uma regra de bolso: se o texto chinês que você recebeu tem muitos desses caracteres, provavelmente está em cantonês coloquial, e quem só lê o padrão vai tropeçar em várias frases. Tradutores automáticos também podem se confundir com essa mistura, embora tenham melhorado bastante.
Tradutor de mandarim: como saber o que pedir na tradução mandarim-português?
Antes de fechar qualquer serviço, responda a três perguntas. Elas resolvem a maioria das dúvidas.
O material é texto, áudio ou vídeo?
Se é texto, o que importa é o que está escrito, não o que se fala na região de origem. Um documento de uma empresa de Guangdong quase sempre vem em chinês padrão simplificado. Um contrato de Hong Kong, em chinês padrão tradicional. Os dois são trabalho de quem domina o chinês escrito, ou seja, o mandarim. Se o material é áudio ou vídeo, a pergunta muda: em que língua as pessoas estão falando? Aí não tem jeito, a tradução precisa de alguém que entenda aquela variante falada.
Quem vai ler o resultado?
Se você vai traduzir do português para o chinês, o público decide tudo. Para leitores da China continental, chinês padrão em simplificado. Para Taiwan, chinês padrão em tradicional, com o vocabulário de lá. Para Hong Kong, tradicional, e só em casos específicos vale pensar em cantonês escrito, como uma campanha que quer soar bem local e descontraída. A escolha entre os dois sistemas de escrita tem um guia próprio aqui no blog: chinês simplificado ou tradicional, qual usar.
De onde veio o material?
A origem dá uma boa pista. A maior parte dos doramas da China continental e de Taiwan é falada em mandarim; muitos filmes e séries de Hong Kong, em cantonês. Se você tem um canal ou uma página de C-drama, vale entender esse cenário antes de prometer legendas aos seguidores, e o artigo sobre o que são os C-dramas e por que a tradução muda tudo ajuda nisso.
Quais erros acontecem quando o pedido sai errado?
Imagine que alguém encomenda “tradução para o chinês” de um folheto voltado a turistas de Taiwan e recebe o texto em simplificado, com vocabulário do continente. Não está errado em si, mas o leitor taiwanês percebe na hora que o material não foi pensado para ele. O efeito é parecido com um cardápio brasileiro escrito com “pequeno-almoço” e “autocarro”.
Outros tropeços comuns:
- Contratar uma legenda de “chinês” para um vídeo que, na verdade, é em cantonês, e só descobrir quando o trabalho já começou.
- Pedir “cantonês” para um texto de Hong Kong que está todo em chinês padrão, e procurar à toa um profissional mais difícil de encontrar.
- Passar o texto por um conversor automático de simplificado para tradicional e achar que ele virou “taiwanês”. O conversor troca os caracteres, mas não o vocabulário.
- Confiar na tradução automática para identificar a variante. Ela pode traduzir um texto em cantonês coloquial como se fosse mandarim e entregar frases que parecem fazer sentido, sem fazer.
Nenhum desses erros é grave se aparecer cedo. O problema é quando ele só aparece depois que o material foi publicado ou enviado. Para entender um texto que já chegou em chinês, o guia de tradução do chinês para o português sem erro mostra como checar o que você tem em mãos.
Com o que eu trabalho, e o que eu não faço
Eu traduzo e reviso entre português e mandarim, tanto em chinês simplificado quanto em tradicional. Na prática, isso inclui legendas de doramas e vídeos falados em mandarim, documentos e textos, revisão de traduções feitas por IA e conferência de nomes, frases e tatuagens em chinês. Se você vai fazer o caminho contrário, do português para o chinês, o artigo sobre tradução para o chinês sem passar vergonha explica o que eu preciso saber antes de começar.
Também gosto de ser clara sobre o que fica de fora. Não faço interpretação ao vivo nem acompanho reuniões. E não traduzo cantonês falado: se o seu vídeo é em cantonês, o melhor é procurar alguém que domine essa variante. Quando o caso é um texto de Hong Kong, eu olho um trecho antes e digo com sinceridade se está em chinês padrão, que eu traduzo, ou em cantonês coloquial, que pede outro profissional.
Ficou em dúvida se o seu material é mandarim, cantonês, simplificado ou tradicional? Me mande um trecho ou alguns segundos do vídeo pelo WhatsApp. Eu identifico o que é, conto como trabalharia e, se for algo que eu faço, já envio o orçamento. Se quiser ver tudo o que ofereço, dê uma olhada na lista de serviços.
