A tradução de site para chinês só funciona de verdade quando vira localização: além de passar o texto para o chinês escrito, você precisa escolher entre simplificado (China continental) e tradicional (Taiwan e Hong Kong), trocar recursos que não funcionam na China, como mapas e vídeos do Google, e ajustar nome de marca, datas, moeda e contatos. Com o catálogo em chinês vale a mesma regra. O comprador precisa sentir que o material foi feito para ele, e não convertido às pressas.
Tradução de site para chinês ou localização: qual a diferença?
Traduzir é passar as palavras de uma língua para outra. Localizar é adaptar a página ao lugar onde ela vai ser lida, inclusive o que precisa sair dela. Um botão “Fale conosco pelo WhatsApp” pode estar traduzido sem erro nenhum e, mesmo assim, não servir para nada a um comprador em Xangai.
E por que não ficar no inglês? Porque ele não chega a todo mundo. No guia comercial sobre a China, a International Trade Administration, do governo dos EUA, observa que não é raro encontrar executivos de alto escalão sem domínio do inglês de negócios, e inclui catálogos e manuais traduzidos para o chinês entre os elementos que pesam para vender por lá. Concordo: quem decide a compra nem sempre é quem conversa com você em inglês.
Na prática, um site em chinês bem localizado cuida de:
- escrita e vocabulário certos para a região;
- nomes de produtos e da marca pensados em chinês;
- canais de contato que funcionam no país do visitante;
- datas, moeda e endereços no formato local;
- fontes e layout preparados para caracteres chineses.
Chinês simplificado ou tradicional: qual escolher para o seu site?
Depende de onde está o comprador. Na China continental, a escrita padrão são os 规范汉字 (guīfàn hànzì, “caracteres padronizados”), na prática o chinês simplificado. A lei chinesa sobre a língua e a escrita comuns nacionais, revisada em dezembro de 2025, mantém esse padrão e reserva os tradicionais para casos específicos, como caligrafia e patrimônio histórico. Taiwan, Hong Kong e Macau escrevem em tradicional.
O vocabulário muda junto. “Fale conosco” costuma ser 联系我们 (liánxì wǒmen) num site do continente e 聯絡我們 (liánluò wǒmen) num site de Taiwan; “fazer login” é 登录 (dēnglù) de um lado e 登入 (dēngrù) do outro. Conversor automático não resolve isso. Para vender nos dois mercados, faça duas versões revisadas, nunca uma página que mistura as escritas.
Como descendente de taiwaneses, tenho carinho pelo tradicional, mas a resposta honesta é: para a China continental, simplificado. Os detalhes estão no guia sobre chinês simplificado ou tradicional.
Como os chineses usam a internet: Baidu, WeChat e o bloqueio do Google
Este é o ponto que mais surpreende quem vende a partir do Brasil. Segundo o relatório Freedom on the Net 2024, da Freedom House, o buscador do Google está bloqueado na China continental desde 2012, e serviços como Maps, Tradutor, Docs, Drive e Analytics seguiam bloqueados no período analisado. Facebook, WhatsApp, Instagram e YouTube também aparecem entre as plataformas estrangeiras bloqueadas.
Para o seu site, isso quer dizer que:
- mapa do Google e vídeo do YouTube incorporados podem virar um quadro vazio;
- o Google Analytics tende a não registrar as visitas de lá;
- o botão de WhatsApp e o login com Google não levam a lugar nenhum;
- fontes e scripts hospedados no Google podem deixar a página lenta ou incompleta.
No lugar do Google, o internauta do continente usa buscadores locais, e o mais conhecido é o 百度 (Bǎidù). Para conversar, o centro de tudo é o 微信 (Wēixìn), o WeChat, que a Freedom House descreve como um app do qual as pessoas dependem para mensagens, serviços bancários, pedidos de comida e reservas de viagem. Ponha no site e no catálogo um ID ou QR code de WeChat e um e-mail que alguém de fato leia. A etiqueta da conversa está no guia de WeChat para importadores, e vale também para quem vende.
O bloqueio é da China continental. Em Taiwan e em Hong Kong, Google e YouTube funcionam normalmente, e vale perguntar ao seu contato local quais canais ele usa.
Exportadores brasileiros e o mercado chinês: por que o catálogo em chinês pesa?
Em 2024, a China foi o principal destino das exportações brasileiras. Segundo o Perfil de Comércio e Investimentos da China, que a ApexBrasil atualizou em maio de 2025, o país respondeu por 28% de tudo o que o Brasil exportou naquele ano, mas soja, petróleo bruto e minério de ferro somaram 75,6% dessas vendas. O estudo defende diversificar e agregar valor. A agência diz ter identificado quase 400 oportunidades, com produtos como cobre, trigo, carne bovina, máquinas, calçados e medicamentos, e vê potencial em cidades chinesas de segundo nível, ainda pouco exploradas pelos brasileiros.
Soja e minério se vendem por especificação e contrato. Calçado, café especial e cosmético dependem de apresentação, e é aí que o catálogo em chinês entra. Imagine um comprador recebendo dois PDFs, um em inglês e outro num chinês claro. Qual dos dois você acha que ele repassa ao chefe?
Num catálogo em chinês, eu confiro com atenção redobrada:
- nomes dos produtos escritos como o comprador procuraria;
- especificações, medidas e certificações com os mesmos termos em todas as páginas;
- preços com a moeda explícita (USD, CNY), sem um “$” solto;
- embalagem e quantidade por caixa, que o importador usa para calcular o frete;
- contatos que funcionam na China, como WeChat e e-mail.
Tom, formalidade e frases que viram problema em chinês estão no artigo sobre como traduzir para chinês sem passar vergonha.
Nome de marca em chinês: o som e o sentido importam
Para vender ao consumidor chinês, a marca precisa de um nome que dê para ler e falar em chinês. O China IP SME Helpdesk, serviço da Comissão Europeia, descreve dois caminhos. A tradução literal funciona quando a marca tem um significado marcante, mas soa diferente do original. A versão fonética soa parecido e faz mais sentido quando a marca já é conhecida pelo público chinês.
Os melhores nomes juntam som e sentido. 可口可乐 (Kěkǒu Kělè) lembra Coca-Cola e diz algo como “gostoso e alegre”. A BMW é 宝马 (Bǎomǎ), “cavalo precioso”, que ainda guarda o B e o M do original. O risco está no avesso: um caractere de som bonito pode lembrar uma palavra ruim, como o 四 (sì, quatro), evitado por soar parecido com 死 (sǐ, morte). O helpdesk alerta ainda que um nome fonético pode ganhar sentido indesejado em algum dos grandes dialetos chineses. No sentido oposto, muitas marcas buscam caracteres de bom agouro, como o caractere da sorte.
Há também o lado jurídico. A China adota o sistema do primeiro depositante (first-to-file): quem pede o registro primeiro fica com a marca. Por isso o helpdesk recomenda registrar três versões, em letras latinas, em caracteres chineses e como logotipo, cada uma como pedido separado. O registro é assunto para um agente ou advogado de marcas; a minha parte é conferir o que os caracteres dizem e como soam. Para nomes de pessoas, como os do cartão de visita, veja o guia de nome em chinês.
Fontes, layout, datas e moeda: o que entrega uma tradução apressada
Mesmo com o texto perfeito, alguns formatos denunciam a pressa:
| Item | Como costuma estar no site brasileiro | Como adaptar para o leitor chinês |
|---|---|---|
| Data | 15/10/2026 | 2026年10月15日, do maior para o menor (nián = ano, yuè = mês, rì = dia) |
| Moeda | R$ ou um “$” sem país | CNY ou 人民币 (rénmínbì) no continente; TWD em Taiwan; HKD em Hong Kong; USD (美元, měiyuán) para dólar |
| Endereço | Rua, número, cidade, país | Ordem inversa, do país até a rua e o número |
| Contato | WhatsApp e Instagram | WeChat, e-mail e telefone com o código +55 |
O símbolo ¥ serve tanto para o yuan quanto para o iene, então prefira o código da moeda. E, em Taiwan, documentos oficiais podem usar o calendário da República da China, em que 2026 é o ano 115 (民國115年, Mínguó 115 nián).
Nas fontes, o erro mais visível é usar uma tipografia sem caracteres chineses: o navegador preenche com outra fonte, e a página fica com estilos misturados ou quadradinhos vazios. Escolha uma família com versão para a escrita do seu público, como a Noto Sans CJK, que tem variantes para simplificado (SC) e tradicional (TC). E esqueça o itálico, que o chinês não tem de verdade; o navegador só inclina os caracteres. Para destacar, use peso ou cor.
No layout, o chinês costuma ocupar menos espaço do que o português, mas pede letra um pouco maior e mais espaço entre as linhas. Texto dentro de imagem, como banners e fichas técnicas em JPG, não é traduzido por plugin nenhum: precisa do arquivo editável.
SEO em chinês: o que muda para ser encontrado?
Em linhas gerais, a lógica do SEO continua a mesma: páginas rápidas, texto útil e as palavras que o cliente realmente digita. A pesquisa de palavras-chave precisa nascer em chinês. Quem procura café do Brasil digita algo como 巴西咖啡豆 (Bāxī kāfēidòu, “grãos de café do Brasil”), e a sua lista em português traduzida ao pé da letra raramente chega lá.
- Dê a cada versão uma URL ou seção própria, com o idioma marcado no código (zh-Hans ou zh-Hant).
- Escreva título, descrição e texto alternativo das imagens em chinês.
- Não deixe a página depender de recursos do Google para carregar.
E a hospedagem? Para manter o site dentro da China continental, as regras sobre serviços de informação na internet, publicadas pelo Conselho de Estado chinês em 2000 e revisadas depois, exigem licença de quem cobra por esses serviços e registro prévio, o 备案 (bèi'àn), de quem oferece informação gratuita, como um site institucional. Hospedar fora evita essa etapa, mas a página pode carregar devagar por lá; é decisão para o seu provedor ou um parceiro local. E parte da presença digital chinesa vive dentro do WeChat, nas contas oficiais (公众号, gōngzhònghào), e não no site aberto.
Por onde começar a tradução do seu site e catálogo para chinês?
Defina primeiro o mercado, porque dele saem a escrita, os canais de contato e o nome da marca. Depois, monte um glossário com nomes de produtos e termos técnicos e comece pelas páginas que vendem: início, produtos, empresa e contato. Antes de publicar, troque o que não funciona no país e faça uma revisão humana do texto final, inclusive do que saiu de IA.
Eu traduzo e reviso textos de site, catálogos e apresentações entre português e chinês, simplificado ou tradicional, e confiro traduções feitas por IA antes de irem ao ar. A programação e a diagramação ficam com a sua equipe; eu entrego o texto pronto para o layout. Mande o link do site ou o PDF do catálogo pelo WhatsApp e me conte para qual mercado ele vai. Os outros trabalhos estão na lista de serviços.
Fontes e referências
- China: Freedom on the Net 2024 — Freedom House
- China – Selling Factors and Techniques (China Country Commercial Guide) — International Trade Administration – Departamento de Comércio dos EUA
- ApexBrasil atualiza o Perfil de Comércio e Investimento China 2025 — Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil)
- China – Frequently Asked Questions (China IP SME Helpdesk) — Comissão Europeia – IP Helpdesk
- Lei da Língua Falada e Escrita Comum Nacional (国家通用语言文字法), revisão de 2025 — Ministério do Comércio da China (MOFCOM) – banco de normas
- Medidas de Administração dos Serviços de Informação na Internet (互联网信息服务管理办法, Decreto n.º 292 do Conselho de Estado) — Governo da República Popular da China – Gazeta do Conselho de Estado
